Apostas com informação privilegiada movimentam mercado e geram US$ 143 milhões em lucros, aponta estudo
Pesquisas revelam que participantes com acesso antecipado a dados confidenciais vêm obtendo ganhos milionários em plataformas de previsão, levantando debates sobre ética, regulação e segurança nacional
Thaynara Godinho em 8 de junho de 2026

Nos Estados Unidos, o crescimento dos mercados preditivos tem atraído investidores, empresas e até instituições financeiras. No entanto, estudos recentes apontam que parte dos lucros obtidos nessas plataformas pode estar relacionada ao uso de informações privilegiadas, gerando preocupações sobre transparência, segurança nacional e fiscalização.
Pesquisadores da Universidade de Columbia e da Universidade de Haifa estimam que apostadores com acesso a informações confidenciais acumularam cerca de US$ 143 milhões em ganhos na plataforma Polymarket. Os casos analisados envolvem desde acontecimentos políticos e militares até eventos culturais e premiações internacionais.
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Entre os episódios que chamaram a atenção está o de um militar das forças especiais dos Estados Unidos que investiu aproximadamente US$ 33 mil em contratos relacionados à captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Dias depois da aposta, a operação foi realizada e o investidor obteve lucro superior a US$ 436 mil.
Outro caso citado em estudos e análises internacionais envolve um operador identificado pelo pseudônimo “Magamyman”, que aplicou mais de US$ 553 mil em contratos ligados à morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei. As operações teriam sido realizadas poucas horas antes do acontecimento, gerando questionamentos sobre o acesso prévio a informações estratégicas.
Segundo especialistas, situações como essas evidenciam o potencial uso de dados não públicos para obtenção de vantagens financeiras em mercados que movimentam bilhões de dólares.
Levantamento realizado pelo Financial Times identificou um comportamento incomum em apostas classificadas como “ousadas”, especialmente em eventos geopolíticos e militares.
Foram consideradas ousadas operações acima de US$ 25 mil ou apostas em cenários que possuíam menos de 35% de probabilidade de ocorrer. O estudo apontou que essas apostas alcançaram taxa de sucesso de 52%.
Para efeito de comparação, a média de acerto das apostas convencionais analisadas ficou em apenas 14%, reforçando as suspeitas de que parte dos investidores possa estar operando com vantagens informacionais.
Os estudos também mostram uma forte concentração de ganhos entre poucos participantes. Dados divulgados pelo Wall Street Journal indicam que cerca de 67% de todo o lucro registrado na Polymarket está concentrado em apenas 0,1% das contas da plataforma. Enquanto isso, mais de 70% dos usuários acumulam prejuízos.
Especialistas apontam que grandes investidores, fundos e empresas com acesso a enormes volumes de dados utilizam tecnologias avançadas, inteligência artificial e modelos de Big Data para identificar tendências antes do restante do mercado.
Na prática, isso cria um ambiente em que os maiores ganhos acabam ficando nas mãos de participantes com capacidade superior de análise e acesso privilegiado a informações.
Desde 2024, o setor passou por mudanças importantes nos Estados Unidos. A Commodity Futures Trading Commission (CFTC), órgão responsável pela supervisão do mercado, alterou a forma como essas plataformas são enquadradas.
Ao invés de serem tratadas como jogos de azar, muitas passaram a ser classificadas como mercados de derivativos, aproximando seu funcionamento do mercado financeiro tradicional.
A diferença está na estrutura da operação. Nas apostas esportivas convencionais, o usuário aposta contra a casa. Já nos mercados preditivos, os participantes negociam contratos entre si sobre a ocorrência ou não de determinado evento, enquanto a plataforma atua como intermediadora e cobra taxas pelas transações.
Essa mudança abriu espaço para a entrada de investidores institucionais que antes não podiam participar de atividades associadas a jogos de azar.
O crescimento do setor chamou a atenção de grandes instituições financeiras. Empresas e bancos passaram a acompanhar as probabilidades geradas pelos mercados de previsão como indicadores complementares para análises econômicas e políticas.
O argumento utilizado é o da chamada “sabedoria das multidões”, segundo a qual a soma das expectativas de milhares de participantes pode gerar previsões mais precisas do que análises individuais.
Pesquisas acadêmicas reforçam essa percepção. Um estudo que avaliou centenas de pesquisas eleitorais nos Estados Unidos concluiu que mercados preditivos superaram especialistas em diversas ocasiões ao antecipar resultados eleitorais.
Casos recentes envolvendo eleições americanas e grandes premiações internacionais também contribuíram para fortalecer a credibilidade dessas plataformas como instrumentos de previsão em tempo real.
Apesar do potencial informativo desses mercados, especialistas destacam riscos significativos quando informações sensíveis passam a ser transformadas em oportunidades de lucro.
O professor Felipe Buchbinder, doutor em Administração e pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que o uso de informações sigilosas para ganhos financeiros não apenas levanta questões éticas, mas também pode representar uma ameaça geopolítica.
Nos Estados Unidos, o senador Richard Blumenthal chegou a afirmar que os mercados de previsão podem estar se transformando em um ambiente legalizado para a exploração de informações privilegiadas ligadas à segurança nacional.
A preocupação é que apostas de grande valor ou realizadas pouco antes de eventos estratégicos acabem revelando informações que governos tentam manter sob sigilo.
No Brasil, a legislação segue entendimento semelhante ao adotado pela CFTC ao distinguir mercados preditivos das apostas tradicionais.
A Lei nº 14.790/2023 regulamenta as apostas de quota fixa, enquanto a Resolução nº 5.298, publicada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em abril de 2026, estabelece restrições para mercados de previsão envolvendo eventos políticos, eleitorais e outros temas específicos.
A norma, contudo, não impede o desenvolvimento de mercados relacionados a indicadores econômicos e financeiros, mantendo aberta a discussão sobre os limites regulatórios desse segmento que ganha cada vez mais relevância no cenário global.
Com a entrada de grandes investidores, o interesse de Wall Street e o avanço da tecnologia de análise de dados, os mercados preditivos caminham para ocupar um espaço cada vez maior no sistema financeiro global.
Ao mesmo tempo, os casos envolvendo possíveis informações privilegiadas colocam pressão sobre reguladores e autoridades, que terão o desafio de equilibrar inovação, transparência e proteção de informações sensíveis em um mercado que movimenta bilhões de dólares e influencia decisões ao redor do mundo.
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