Apostas online aumentam em 20% a inadimplência e reduzem crédito em 16%, aponta estudo
Pesquisa realizada no Brasil mostra que entrada nas plataformas de apostas está associada ao aumento de atrasos em pagamentos e à redução do limite de crédito; jovens aparecem entre os grupos mais expostos
Thaynara Godinho em 8 de setembro de 2026

Um estudo inédito sobre os impactos das apostas online nas finanças dos brasileiros encontrou uma relação significativa entre o início da atividade e a piora da situação financeira dos apostadores. Segundo a pesquisa, começar a apostar em bets está associado a um aumento médio de 20% na proporção de pessoas com pagamentos em atraso.
O levantamento também identificou uma redução de até 16% no limite de crédito disponibilizado pelos bancos aos consumidores após o início das apostas.
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A pesquisa foi conduzida pelo economista Sérgio Firpo, professor do Insper, em parceria com economistas da Stone, empresa que atua nos segmentos de serviços financeiros e pagamentos. O trabalho, intitulado “Apostas Online e Dificuldades Financeiras: Evidências do Brasil”, foi divulgado nesta terça-feira (8), mas ainda não foi submetido à publicação em uma revista científica.
Para avaliar os efeitos financeiros provocados pelo ingresso nas plataformas de apostas, os pesquisadores analisaram consumidores que realizaram sua primeira aposta depois de janeiro de 2025, período em que o mercado regulado de apostas de quota fixa passou a operar no país.
Esses consumidores foram comparados com pessoas de características semelhantes que ainda não haviam utilizado as plataformas.
As informações sobre movimentações financeiras foram obtidas a partir da base de clientes da Stone. Já os dados relacionados à inadimplência e ao acesso ao crédito tiveram como fonte registros do Banco Central.
A metodologia buscou separar os efeitos associados às apostas de outros fatores que poderiam influenciar a situação financeira dos consumidores ao longo do período analisado.
Um dos principais resultados apontados pela pesquisa está relacionado ao pagamento das faturas de cartão de crédito.
Entre os consumidores que começaram a apostar, a parcela da fatura que entrou em atraso aumentou 38,7% no primeiro ano após o início da atividade, quando comparada à evolução registrada entre pessoas que não apostavam.
Os pesquisadores identificaram ainda que o impacto é mais intenso entre aqueles que destinam uma parcela significativa da renda às plataformas.
De acordo com o estudo, aproximadamente 10% dos apostadores direcionam mais de 20% de todo o dinheiro que sai de suas contas mensalmente para as bets. Nesse grupo, o comprometimento da renda com apostas pode dificultar o pagamento de despesas e obrigações financeiras.
A pesquisa também encontrou efeitos sobre a disponibilidade de crédito. Após o início das apostas, o limite disponível para empréstimos caiu, em média, 16% em relação ao patamar registrado anteriormente. O cálculo considera também a evolução geral do mercado de crédito no mesmo período.
Para Rômullo Carvalho, economista da Stone e um dos autores do estudo, a magnitude da redução chama atenção por se aproximar de efeitos observados em situações de perda de emprego.
O resultado indica que o início das apostas pode ser acompanhado não apenas por dificuldades para honrar compromissos financeiros já existentes, mas também por uma redução da capacidade de acesso a novos recursos de crédito.
Os dados de movimentação financeira também mostram uma diferença expressiva entre os valores enviados às plataformas e os recursos que retornam para as contas dos usuários.
Nos primeiros seis meses após o início das apostas, 82,5% dos consumidores analisados não receberam nenhum valor de volta das plataformas. Além disso, 90,8% transferiram para as bets uma quantia superior ao total que retornou às suas contas durante o período.
Os números reforçam a predominância de perdas financeiras entre os usuários analisados, especialmente nos primeiros meses de utilização das plataformas.
Embora o estudo identifique efeitos financeiros após o início das apostas, os pesquisadores também encontraram indícios de que parte dos consumidores pode começar a apostar justamente por já enfrentar dificuldades econômicas.
Isso significa que existe uma relação nos dois sentidos: as apostas podem contribuir para a piora da situação financeira, mas problemas financeiros anteriores também podem aumentar a procura por esse tipo de plataforma.
A constatação é importante porque indica que a inadimplência entre apostadores não pode ser atribuída exclusivamente ao comportamento de apostar. Segundo os pesquisadores, fatores financeiros anteriores também precisam ser considerados na análise.
Outro ponto destacado pelos autores é a composição da amostra utilizada na pesquisa.
Os clientes da Stone analisados no levantamento são, em média, mais velhos do que o perfil geral dos brasileiros que apostam, segundo informações da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.
O próprio estudo encontrou diferenças entre as faixas etárias. Consumidores mais jovens tendem a comprometer uma parcela maior de sua renda com apostas e também apresentam níveis mais elevados de inadimplência.
Por esse motivo, os pesquisadores avaliam que os resultados encontrados podem representar uma estimativa conservadora dos impactos das bets sobre o conjunto dos apostadores brasileiros.
Os autores também levantaram a possibilidade de que os efeitos identificados no estudo tenham consequências para a economia de forma mais ampla.
A avaliação considera o número de brasileiros que participam do mercado de apostas. Segundo dados citados pelos pesquisadores com base no Ministério da Fazenda, cerca de 25 milhões de pessoas apostam no país.
Caso a redução do acesso ao crédito observada na amostra também ocorra em uma parcela significativa desse universo, o impacto agregado poderia afetar o consumo e outras atividades econômicas que dependem da disponibilidade de crédito.
Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que o estudo não calculou diretamente o efeito macroeconômico das apostas sobre a economia brasileira.
Para Sérgio Firpo, os chamados jogos de cassino online representam uma preocupação adicional dentro do mercado de apostas.
Modalidades como os jogos conhecidos popularmente como “tigrinho” permitem partidas rápidas, com resultados praticamente instantâneos e possibilidade de repetição contínua. Na avaliação do pesquisador, essas características podem favorecer um padrão de uso mais intenso.
Firpo defende a adoção de mecanismos mais rígidos para limitar a exposição dos consumidores e aumentar os custos associados ao comportamento de apostar.
Os resultados também alimentam o debate sobre a efetividade das atuais regras aplicadas ao setor de apostas no Brasil.
Rômullo Carvalho questionou se a tributação atualmente aplicada às bets é suficiente para desestimular o consumo de apostas. Na avaliação do economista, caso o objetivo da cobrança também seja reduzir o volume apostado, os dados de crescimento do mercado indicariam que o nível atual de tributação pode não estar produzindo esse efeito.
A discussão ganha relevância diante do crescimento do mercado regulado e das preocupações relacionadas ao endividamento, ao acesso ao crédito e ao comportamento de consumidores considerados mais vulneráveis.
Os pesquisadores defendem que os impactos financeiros identificados sejam considerados nas decisões sobre políticas públicas e na definição de novas medidas de proteção aos usuários das plataformas de apostas.
A pesquisa apresenta uma das análises mais recentes sobre a relação entre apostas online e saúde financeira dos consumidores no Brasil. Embora os autores ressaltem que o trabalho ainda não tenha passado pelo processo de publicação e revisão de uma revista científica, os resultados apontam uma associação relevante entre o início das apostas, aumento da inadimplência e redução do acesso ao crédito.
Com a expansão do mercado regulado, os dados colocam no centro do debate não apenas a arrecadação e o crescimento econômico do setor, mas também os possíveis efeitos sobre o orçamento das famílias e o sistema de crédito brasileiro.
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