O setor de “atacarejo” levou ao vice-presidente Geraldo Alckmin uma série de propostas para conter o avanço das plataformas de apostas sobre a renda das famílias brasileiras. Em reunião realizada na tarde de segunda-feira, representantes do segmento defenderam ações mais duras, sobretudo contra operações ilegais, e alertaram para os efeitos diretos no consumo e no endividamento.
As sugestões foram apresentadas por Belmiro Gomes, CEO do Assaí e presidente do conselho da Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas). O setor, que movimentou cerca de R$ 370 bilhões no último ano, sustenta que o crescimento das apostas online, somado ao alto nível de endividamento, tem pressionado o poder de compra da população, especialmente nas classes médias e mais baixas.
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Durante o encontro, o setor apresentou um diagnóstico preocupante da economia. Segundo o material entregue ao vice-presidente, o consumo no país estaria “fragmentado”, com crescimento nos segmentos voltados à alta renda, enquanto há retração entre consumidores da classe C, fenômeno descrito como “efeito K”.
O documento também aponta que o Brasil concentra mais de 20% do tráfego global em sites de apostas, indicando não apenas a popularização da atividade, mas também a existência de uma economia paralela que ainda não é totalmente capturada por dados oficiais.
Para o atacarejo, esse cenário já começa a comprometer o varejo alimentar e pode gerar impactos mais amplos na economia caso não haja intervenção.
Propostas imediatas miram bets ilegais e uso do Pix
No curto prazo, com horizonte de até 12 meses, o setor propõe um conjunto de medidas integradas para dificultar a atuação de plataformas ilegais. Entre os principais pontos estão:
- Bloqueio de acessos por URL a sites irregulares;
- Restrições no uso do Pix para operações de apostas ilegais;
- Controle mais rígido sobre publicidade;
- Combate ao chamado “patrocínio cruzado”.
Além disso, os representantes sugerem limitar de forma mais firme a publicidade de jogos de cassino online, preservando, ao mesmo tempo, o mercado de apostas esportivas regulamentadas, considerado importante para o financiamento de clubes e eventos esportivos.
Outro ponto sensível é o bloqueio do chamado “Pix social” para empresas de apostas, medida que busca evitar o uso de benefícios sociais em jogos.
Modelo semelhante ao do tabaco é defendido no longo prazo
Para o médio e longo prazo, entre cinco e dez anos, o setor propõe uma abordagem mais ampla, tratando as apostas como uma questão de saúde pública. A ideia é seguir um modelo semelhante ao adotado no combate ao tabagismo no Brasil, que reduziu significativamente o número de fumantes ao longo das últimas décadas sem proibir o consumo.
Nesse sentido, o atacarejo sugere:
- Inclusão das apostas sob a gestão do Ministério da Saúde;
- Enquadramento do tema como política sanitária;
- Comunicação com foco em riscos e impactos familiares;
- Ampliação do tratamento da ludopatia pelo SUS.
A proposta defende uma abordagem técnica, com linguagem clínica e sem viés moral, priorizando a redução de danos.
Setores produtivos reforçam preocupação com economia real
Além de Belmiro Gomes, participaram da reunião representantes de outros setores relevantes da economia, como Renato Costa, da Friboi, e Roberto Perosa, da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC).
A presença de diferentes segmentos reforça a preocupação crescente no meio produtivo com os efeitos das apostas online sobre a economia real, especialmente no consumo interno.
O debate ocorre em um momento em que o Brasil avança na regulamentação do setor de apostas, ao mesmo tempo em que enfrenta o desafio de combater plataformas ilegais e equilibrar crescimento econômico com proteção ao consumidor.