Candidatos divergem sobre bets em 2026: de proibição total a impostos mais altos
Presidenciáveis reconhecem o avanço das apostas online como um problema, mas apresentam caminhos distintos: enquanto alguns defendem o fim das bets, outros propõem endurecer regras, ampliar a fiscalização e aumentar a carga tributária sobre o setor
Thaynara Godinho em 20 de agosto de 2026

O debate sobre o futuro das apostas esportivas online ganhou espaço na corrida presidencial de 2026. Candidatos de diferentes correntes políticas passaram a defender medidas para conter os impactos das bets no Brasil, especialmente diante das preocupações com endividamento, vício em jogos e exposição de crianças e adolescentes às plataformas.
Apesar de existir uma convergência sobre a necessidade de endurecer o controle do setor, as propostas apresentadas são diferentes. Há candidatos que defendem a proibição completa das apostas online, enquanto outros apostam em mudanças na regulamentação, restrições à publicidade, monitoramento financeiro e aumento dos impostos cobrados das empresas.
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Um levantamento publicado pelo Globo Online nesta quinta-feira (20) mostrou como o tema passou a ocupar posição relevante no debate eleitoral de 2026.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição, afirmou que o governo estuda novas medidas para restringir o funcionamento das apostas esportivas online no país.
Em entrevistas aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, Lula declarou que, pessoalmente, defende o fim das bets. O presidente também demonstrou preocupação com a facilidade de acesso às plataformas por crianças e adolescentes.
Segundo Lula, o tema está sendo discutido com integrantes dos ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Justiça. Na última semana, o presidente reuniu ministros para tratar de possíveis medidas relacionadas ao setor.
O debate ocorre após o anúncio de novas regras para a publicidade das apostas. Entre as mudanças estão advertências sobre os riscos do jogo e restrições a conteúdos que possam transmitir a ideia de lucro fácil ou criar um senso artificial de urgência para apostar.
Também nesta semana, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, determinou a suspensão de sites relacionados a seis empresas por descumprimento das regras estabelecidas para o mercado regulado.
O senador Flávio Bolsonaro (PL), apontado como um dos principais nomes da disputa presidencial, incluiu em seu programa de governo uma proposta para impedir que recursos de programas sociais sejam utilizados em apostas.
O documento afirma que o dinheiro destinado à alimentação e às necessidades básicas das famílias não deve ser direcionado às casas de apostas.
A restrição, no entanto, já passou a valer para beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) desde outubro de 2025.
Sobre uma eventual proibição total das bets, integrantes da chapa indicaram que ainda não existe uma posição definitiva. O vice, Alfredo Gaspar (PL), afirmou que Flávio Bolsonaro pretende discutir uma revisão da regulamentação e adotar medidas proporcionais ao impacto do setor sobre as famílias brasileiras.
A avaliação apresentada é de que o atual cenário das apostas exige uma intervenção mais rígida do poder público.
Entre os candidatos que adotam uma posição mais direta contra as apostas online está Romeu Zema (Novo). O ex-governador de Minas Gerais defende o encerramento das atividades das bets e afirma que a proibição seria uma das primeiras medidas de seu eventual governo.
Durante um encontro com mulheres que relataram problemas familiares relacionados às apostas, Zema comparou a dependência em jogos aos efeitos provocados por outras formas de vício e criticou a atuação das autoridades diante do crescimento do setor.
Seu vice, o senador Eduardo Girão (Novo), também é um defensor antigo da proibição das apostas.
Renan Santos, candidato do Missão, segue uma linha semelhante. Durante debate promovido pela União Nacional das Entidades do Comércio e Serviços (Unecs), o candidato afirmou que pretende acabar com as bets e criticou a forma como as plataformas são divulgadas nas redes sociais.
Segundo ele, parte do problema está na associação das apostas à promessa de renda e enriquecimento, especialmente por meio da publicidade feita por influenciadores digitais.
Ronaldo Caiado (PSD) apresentou uma estratégia diferente da defendida pelos candidatos favoráveis à proibição total.
O ex-governador de Goiás afirmou que pretende utilizar órgãos como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e a Receita Federal para acompanhar e fiscalizar a circulação de recursos ligados às apostas.
A proposta também prevê ações contra a publicidade considerada excessiva e capaz de estimular o comportamento de jogo.
Questionado sobre uma eventual proibição completa das bets, Caiado não apresentou uma posição direta, indicando preferência por medidas de fiscalização e controle financeiro.
O candidato Augusto Cury (Avante) defende a manutenção das apostas sob uma regulamentação mais rígida, acompanhada de uma elevação significativa da carga tributária sobre as empresas.
Durante sabatina promovida pela Unecs, o escritor afirmou que a cobrança de impostos mais altos poderia funcionar como um mecanismo para reduzir os impactos econômicos e sociais provocados pelo crescimento das bets.
Na visão do candidato, a atuação das empresas deveria ser submetida a regras mais severas, com maior retorno financeiro para o Estado.
A proposta parte da ideia de utilizar a tributação não apenas como fonte de arrecadação, mas também como instrumento para desestimular a expansão do setor.
A discussão não está restrita à disputa pela Presidência da República. Na corrida pelo governo de São Paulo, os principais nomes também passaram a defender mudanças profundas no modelo atual das apostas online.
Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) já se manifestaram publicamente a favor da proibição das bets.
Durante um evento do setor de saúde, Tarcísio afirmou que o avanço das apostas representa um risco para a renda das famílias brasileiras e relacionou o problema ao alto nível de endividamento da população.
Haddad, por sua vez, declarou que é necessário discutir seriamente a possibilidade de proibir as plataformas. O ex-ministro da Fazenda também afirmou que não pretende autorizar novas atividades relacionadas ao setor caso seja eleito governador de São Paulo.
Ao comentar a regulamentação realizada pelo governo federal, Haddad argumentou que a criação de regras ocorreu em um cenário no qual as apostas já eram permitidas e que o objetivo também envolvia estabelecer mecanismos de fiscalização e cobrança de impostos.
O futuro das bets no Brasil depende diretamente das decisões tomadas em âmbito federal. Como a exploração das apostas de quota fixa é regulamentada por legislação nacional, eventuais mudanças estruturais, incluindo uma possível proibição, precisam passar pelo Congresso Nacional e contar com atuação do Poder Executivo federal.
O debate eleitoral de 2026, portanto, deve colocar em confronto diferentes modelos para o setor.
De um lado, estão os candidatos que defendem extinguir completamente as apostas online. De outro, surgem propostas para manter a atividade sob regras mais rígidas, ampliar a fiscalização, restringir a publicidade e aumentar a tributação das empresas.
Com o crescimento do setor e a preocupação crescente com os impactos sobre as famílias, o tema das bets se consolida como um dos assuntos que devem marcar a campanha presidencial de 2026.
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