Kalshi busca reverter bloqueio no Brasil e defende que mercados preditivos são diferentes das apostas tradicionais
Plataforma criada por brasileira afirma que restrição ocorreu por falta de entendimento do modelo de negócios e mantém planos de operar legalmente no país
Thaynara Godinho em 9 de junho de 2026

A plataforma de mercados preditivos Kalshi está trabalhando para reverter a restrição imposta pelo governo brasileiro às suas operações. A medida foi determinada pelo Ministério da Fazenda no fim de abril e enquadrou empresas do setor como operadoras irregulares de apostas, impedindo a oferta de contratos relacionados a eventos como eleições, esportes, reality shows e celebridades.
Durante participação no Web Summit Rio, a cofundadora da empresa, a brasileira Luana Lopes Lara, afirmou que a decisão ocorreu principalmente por uma falta de compreensão sobre o funcionamento desse mercado.
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Segundo a executiva, a prioridade da companhia é dialogar com as autoridades brasileiras para demonstrar as diferenças entre os mercados preditivos e as casas de apostas convencionais.
“Nosso objetivo é explicar melhor o modelo. Entendemos que existe um desafio de compreensão regulatória sobre como essa indústria funciona”, destacou.
O Ministério da Fazenda entende que plataformas como a Kalshi operam atividades semelhantes às das casas de apostas esportivas regulamentadas no Brasil. Por esse motivo, o governo cobra exigências como licença de operação, mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e adequação às regras do setor.
Além disso, o Conselho Monetário Nacional limitou a liquidação de contratos futuros apenas a eventos ligados diretamente a indicadores econômicos e financeiros, restringindo operações relacionadas a entretenimento e esportes.
Apesar disso, a Kalshi afirma que seu modelo não se enquadra no formato tradicional das apostas esportivas e pretende demonstrar essa distinção às autoridades brasileiras.
Um dos principais argumentos apresentados pela companhia é a forma como gera receita. De acordo com Luana Lopes Lara, a Kalshi atua de maneira semelhante a uma bolsa de negociação. Os usuários negociam contratos entre si, enquanto a plataforma apenas cobra uma taxa sobre as transações realizadas.
Segundo a executiva, a empresa recebe uma comissão próxima de 1% sobre o valor movimentado pelas partes envolvidas na negociação.
Diferentemente das casas de apostas tradicionais, onde a operadora pode lucrar diretamente com as perdas dos apostadores, a Kalshi afirma que seu interesse é manter os usuários ativos e negociando por longos períodos.
“A empresa ganha quando existe negociação entre compradores e vendedores, não quando alguém perde dinheiro”, explicou.
Outro ponto defendido pela companhia é que boa parte dos usuários utiliza a plataforma para acompanhar tendências e expectativas futuras, sem necessariamente investir dinheiro.
Segundo dados apresentados pela empresa, cerca de 70% dos visitantes da plataforma acessam os mercados como fonte de informação para acompanhar probabilidades de acontecimentos futuros.
A Kalshi argumenta que os preços dos contratos refletem expectativas coletivas e podem servir como indicadores relevantes para empresas, investidores e analistas.
Os mercados relacionados a esportes e entretenimento seguem sendo um dos temas mais debatidos pelos reguladores internacionais.
Críticos argumentam que esses eventos possuem fatores imprevisíveis e não apresentam uma lógica econômica suficiente para serem tratados como instrumentos financeiros.
A Kalshi, por outro lado, sustenta que justamente a existência dessas incertezas aumenta a necessidade de mecanismos de proteção e gestão de risco para empresas e setores impactados pelos resultados desses eventos.
Como exemplo, a companhia cita o impacto econômico gerado por grandes competições esportivas, que afetam diretamente bares, restaurantes, comércio local e diversas atividades econômicas.
Fundada em 2019, a Kalshi passou anos discutindo seu modelo de negócios com reguladores americanos antes de conquistar uma importante vitória judicial em 2024.
A decisão permitiu que a empresa oferecesse contratos ligados às eleições presidenciais dos Estados Unidos, mercado considerado estratégico dentro do segmento preditivo.
Após a autorização, a companhia registrou forte valorização e alcançou uma avaliação estimada em US$ 22 bilhões.
O crescimento transformou Luana Lopes Lara em uma das figuras mais conhecidas do setor financeiro e tecnológico, tornando-se uma das mulheres mais jovens a atingir patrimônio bilionário.
Apesar do bloqueio atual, a Kalshi demonstra confiança em uma solução para o impasse regulatório brasileiro.
Luana afirmou que espera um processo mais rápido do que o enfrentado nos Estados Unidos, onde a empresa levou cerca de quatro anos para obter reconhecimento regulatório e autorização judicial para determinadas operações.
Questionada sobre uma eventual ação judicial contra o governo brasileiro, a executiva evitou falar em confronto e reforçou que a estratégia inicial será baseada no diálogo.
A empresa também confirmou que mantém o interesse em abrir operações locais no Brasil assim que houver segurança jurídica e enquadramento regulatório adequado.
A Kalshi afirma operar sob rígidos controles regulatórios nos Estados Unidos e adotar ferramentas para prevenir manipulação de mercado, conflitos de interesse e uso de informações privilegiadas.
Entre as medidas implementadas estão limites de depósito, bloqueio de determinados mercados e monitoramento constante das operações realizadas pelos usuários.
A empresa também estabelece restrições sobre os temas que podem ser negociados. Mercados ligados a guerras, assassinatos, terrorismo ou eventos considerados antiéticos não são autorizados pela plataforma.
Além disso, atletas profissionais, integrantes de partidos políticos e pessoas com potencial acesso privilegiado a determinadas informações podem ser impedidos de participar de mercados específicos.
Mesmo enfrentando desafios regulatórios em diferentes países, a companhia mantém ambições de expansão global.
Segundo Luana Lopes Lara, o objetivo da empresa é continuar ampliando sua atuação internacional e alcançar uma valorização entre US$ 100 bilhões e US$ 1 trilhão no futuro.
A executiva também destacou que o crescimento da empresa é resultado de anos de estudo, dedicação e trabalho intenso, ressaltando que permanece focada em consolidar a Kalshi como uma das maiores plataformas do setor de mercados preditivos no mundo.
Com as negociações em andamento junto ao governo brasileiro, o futuro da Kalshi no país dependerá da capacidade da empresa de convencer os reguladores de que seu modelo de negócios possui diferenças significativas em relação às casas de apostas tradicionais.
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