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Mercado de previsão: entenda como funcionam as apostas sobre eleições, celebridades e reality shows que foram proibidas no Brasil

Plataformas como Kalshi e Polymarket movimentam bilhões de dólares ao redor do mundo, mas enfrentam restrições no Brasil por operarem sem seguir as regras impostas às casas de apostas regulamentadas

Thaynara Godinho em 10 de junho de 2026

Mercado de previsão: entenda como funcionam as apostas sobre eleições, celebridades e reality shows que foram proibidas no Brasil

Os chamados mercados de previsão ganharam destaque global nos últimos anos ao permitir que usuários apostem em eventos dos mais variados tipos, desde resultados de eleições e jogos esportivos até casamentos de celebridades, vencedores de reality shows e indicadores econômicos.

 

Plataformas como Kalshi e Polymarket transformaram esse modelo em um negócio bilionário, atraindo milhões de usuários ao redor do mundo. No entanto, desde abril, essas empresas estão proibidas de operar no Brasil após decisões do governo federal que entenderam que suas atividades se assemelham às apostas esportivas tradicionais, mas sem cumprir as exigências regulatórias estabelecidas para o setor.

 

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Diferentemente das casas de apostas convencionais, os mercados de previsão trabalham com contratos de "sim" ou "não" relacionados a acontecimentos futuros.

 

Na prática, o usuário compra um contrato acreditando que determinado evento irá acontecer. Caso o prognóstico esteja correto, ele recebe um retorno financeiro. Se errar, perde o valor investido.

 

Os eventos disponíveis podem envolver partidas esportivas, eleições, economia, entretenimento, comportamento de celebridades e até acontecimentos geopolíticos.

 

Outro diferencial é que esses contratos podem ser negociados livremente entre os usuários antes do resultado final, de forma semelhante ao funcionamento de uma bolsa de valores.

 

Qual a diferença para as bets tradicionais

 

Embora as empresas do setor defendam que operam de forma diferente das casas de apostas, representantes da indústria de bets afirmam que a lógica econômica é praticamente a mesma.

 

Nos dois modelos, o participante investe dinheiro prevendo se um evento ocorrerá ou não. O lucro depende da precisão do palpite.

 

A principal diferença está na estrutura contratual e na forma de precificação. Enquanto as bets costumam definir suas próprias odds ou ajustar as cotações conforme o mercado, os mercados de previsão trabalham com contratos negociados diretamente pelos usuários.

 

Além disso, muitas dessas plataformas obtêm receita por meio de taxas de negociação, venda de dados estatísticos e publicidade, sem necessariamente cobrar uma comissão direta sobre cada aposta.

 

Um mercado que movimenta bilhões

 

O crescimento do setor tem sido acelerado nos últimos anos. Estimativas apontam que os mercados de previsão movimentaram cerca de US$ 51 bilhões em 2025.

 

O segmento ganhou enorme visibilidade durante as eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2024, quando milhares de investidores utilizaram plataformas para apostar nos resultados eleitorais.

 

Desde então, a oferta de contratos se expandiu para esportes, criptomoedas, economia, entretenimento e eventos internacionais.

 

Analistas do mercado financeiro acreditam que esse segmento pode atingir um volume global próximo de US$ 1 trilhão em transações até o final da década.

 

Países também ampliam restrições

 

O Brasil não é o único país a impor barreiras aos mercados de previsão. Atualmente, usuários de dezenas de países enfrentam restrições para acessar esse tipo de plataforma. Em muitos casos, os governos exigem licenças específicas para que as empresas possam operar legalmente.

 

No Reino Unido, por exemplo, plataformas precisam de autorização da autoridade reguladora de jogos. Já na França, órgãos reguladores iniciaram bloqueios contra empresas sem licença local. Itália e Austrália também mantêm restrições contra operadores estrangeiros não autorizados.

 

Quem lidera esse mercado

 

As duas maiores empresas do segmento atualmente são a Kalshi e a Polymarket. A Kalshi tornou-se uma das companhias mais valiosas do setor após captar investimentos bilionários e ampliar sua atuação nos Estados Unidos. A empresa ganhou notoriedade mundial por oferecer contratos relacionados às eleições americanas e diversos eventos econômicos.

 

Já a Polymarket consolidou sua presença no mercado por meio da utilização de criptomoedas e pela ampla variedade de temas disponíveis para negociação.

 

Ambas alcançaram avaliações superiores a US$ 10 bilhões e são consideradas referências globais no setor de previsão de eventos.

 

Como brasileiros utilizavam essas plataformas

 

Antes do bloqueio, usuários brasileiros acessavam os mercados de previsão por meio de remessas internacionais.

 

Os depósitos eram realizados principalmente com criptomoedas, cartões internacionais e contas globais de pagamento. Como essas operações não utilizavam o sistema financeiro nacional tradicional, o acesso ficava restrito a pessoas com maior familiaridade com ativos digitais e serviços financeiros internacionais.

 

Por que o governo decidiu proibir

 

O Ministério da Fazenda concluiu que os mercados de previsão possuem características semelhantes às apostas de quota fixa regulamentadas no Brasil.

 

Segundo o entendimento do governo, empresas como Kalshi e Polymarket deveriam cumprir as mesmas exigências impostas às operadoras autorizadas, incluindo o pagamento da licença de funcionamento, recolhimento de tributos e adoção de mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro e ao jogo problemático.

 

Outro ponto levantado pelas autoridades é que essas plataformas oferecem apostas sobre temas que não são permitidos pela legislação brasileira, como eleições e eventos políticos.

 

Além disso, a regulamentação nacional estabelece que as apostas devem utilizar meios de pagamento autorizados, como o Pix, enquanto muitos mercados de previsão operam com cartões internacionais e criptomoedas.

 

Preocupações com vício em apostas

 

Especialistas em saúde pública também acompanham o crescimento desse mercado com atenção.

 

Estudos realizados nos Estados Unidos apontam que parte dos usuários desenvolve comportamentos compulsivos semelhantes aos observados em cassinos online e plataformas de apostas esportivas.

 

Entre os principais sinais de risco estão o hábito de tentar recuperar perdas rapidamente por meio de novas apostas e o endividamento decorrente da atividade.

 

Pesquisas recentes indicam que uma parcela dos participantes apresenta padrões de comportamento considerados preocupantes pelos especialistas em dependência em jogos.

 

Como ficam as regras no Brasil

 

Com as novas normas publicadas pelo governo federal e pelo Conselho Monetário Nacional, as plataformas de previsão baseadas em eventos esportivos, políticos, sociais e culturais perderam respaldo jurídico para atuar no país.

 

Pelas regras atuais, a Secretaria de Prêmios e Apostas supervisiona as apostas esportivas e os jogos online regulamentados, enquanto a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é responsável pelos derivativos financeiros relacionados a indicadores econômicos e outros ativos autorizados.

 

Na prática, empresas que operam mercados de previsão sobre eleições, entretenimento e acontecimentos sociais permanecem impedidas de oferecer seus serviços ao público brasileiro, enquanto buscam alternativas jurídicas para reverter as restrições.

 

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