Apostas online movimentam R$ 150 milhões na cultura e colocam artistas diante de dilema
Expansão das bets no setor cultural brasileiro amplia patrocínios, mas também provoca debate sobre os limites da associação entre marcas de apostas, artistas e projetos financiados com incentivo fiscal
Thaynara Godinho em 10 de agosto de 2026

As empresas de apostas online estão ampliando sua atuação no mercado cultural brasileiro, seja por meio de patrocínios diretos a grandes eventos, festivais e turnês, seja utilizando mecanismos de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet. O avanço coloca artistas, produtores e instituições culturais diante de uma questão cada vez mais presente: aceitar os recursos de um setor em expansão ou evitar uma associação com uma atividade que ainda provoca controvérsias.
O movimento foi identificado em levantamento da Folha de S.Paulo. Entre as empresas que ampliaram os investimentos está a Superbet, que se tornou a primeira casa de apostas regulamentada no Brasil no fim de 2024. Segundo a companhia, quase R$ 150 milhões foram destinados a patrocínios culturais em 2025 e 2026, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro.
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Entre os eventos que receberam investimentos estão grandes atrações do calendário nacional, como Rock in Rio, Carnaval do Rio de Janeiro e Lollapalooza.
Além dos contratos de patrocínio tradicionais, as empresas de apostas também passaram a utilizar a Lei Rouanet para apoiar projetos culturais. Desde 2025, o segmento destinou R$ 11,8 milhões por meio do mecanismo de incentivo fiscal.
Os recursos foram direcionados a iniciativas de diferentes regiões do país, incluindo o Réveillon de Copacabana, a Oktoberfest de Blumenau, em Santa Catarina, além de eventos realizados no litoral paulista.
Dados do Salic, plataforma do Ministério da Cultura responsável pelo acompanhamento dos projetos da Lei Rouanet, mostram que as empresas de apostas captaram R$ 6 milhões por meio do mecanismo em 2025. Em 2026, até o momento, o montante já alcançou R$ 5,8 milhões.
Embora os valores ainda representem uma parcela pequena diante dos R$ 3,4 bilhões captados por projetos culturais via Lei Rouanet em 2025, o crescimento em curto período passou a chamar a atenção de autoridades e especialistas.
A expansão das bets no mercado cultural também provocou resistência entre artistas. Um dos movimentos que ganhou repercussão foi a campanha “Block no Tigrinho”, organizada pelo movimento 342 Artes durante o período do Mundial.
Personalidades como Caetano Veloso, Emicida e Camila Pitanga participaram de manifestações críticas à expansão das apostas e aos possíveis impactos sociais da atividade.
Para Paula Lavigne, fundadora do 342 Artes, o crescimento das empresas de apostas ocorreu de maneira acelerada e fez com que as marcas passassem a ocupar espaços relevantes dentro da cultura brasileira.
A discussão, porém, não envolve apenas uma escolha individual dos artistas. O acesso a grandes patrocínios pode representar uma fonte importante de financiamento para produções culturais, especialmente em um mercado marcado pela disputa por recursos.
Entre artistas de grande alcance, algumas recusas já vieram a público. O empresário de Simone Mendes afirmou que a cantora rejeitou uma proposta de R$ 64 milhões para divulgação de casas de apostas. Ana Castela também declarou que não realiza publicidade para empresas do segmento.
Ao mesmo tempo em que as bets ampliam os investimentos, governos estaduais e municipais discutem novas limitações para a publicidade do setor.
O debate ganhou força após a Copa do Mundo e episódios envolvendo transmissões esportivas e publicidade de apostas. Em algumas cidades, as regras passaram a restringir a exposição de marcas de bets em determinados eventos.
O CEO da Superbet, Alexandre Fonseca, criticou as novas medidas e afirmou que a restrição à presença das marcas pode comprometer a lógica dos investimentos em grandes eventos.
Segundo o executivo, caso as limitações permaneçam, a empresa poderá deixar de patrocinar eventos de grande porte no Rio de Janeiro e em São Paulo.
No Rio, um decreto municipal já impede a participação de empresas de apostas em eventos contratados, patrocinados ou realizados pela administração pública. A medida afeta diretamente futuros investimentos das casas de apostas em eventos municipais, como o Réveillon de Copacabana.
Um dos maiores valores individuais captados por uma empresa de apostas por meio da Lei Rouanet está relacionado à Kaizen Gaming, responsável pela operação da Betano no Brasil.
A empresa captou R$ 5,078 milhões para o Réveillon de Copacabana de 2026. Com as novas restrições municipais, entretanto, o modelo de patrocínio para próximas edições do evento passa a enfrentar obstáculos.
Fora da Lei Rouanet, a Betano informou ter investido aproximadamente R$ 30 milhões em patrocínios sociais e culturais durante 2025. A companhia, porém, não detalhou quanto desse montante foi destinado especificamente a cada área.
Além da Betano e da Superbet, outras empresas do setor também aparecem entre as patrocinadoras ou proponentes relacionadas a projetos culturais, como Blaze, BetGo, Reals Bet, Bingo Bet, UX Entertainment, Esportes da Sorte, KTO, 7K e Estrelabet.
Os projetos abrangem diferentes formatos, incluindo eventos culturais, festas, espetáculos teatrais e atividades desenvolvidas por instituições.
Para Thiago Alvim, da plataforma Prosas, que participou do levantamento sobre os investimentos, a Lei Rouanet passou a representar uma oportunidade para as bets ampliarem a exposição de suas marcas em um momento de discussão sobre restrições à publicidade do setor.
O mecanismo também permite que empresas patrocinadoras utilizem recursos que seriam destinados ao pagamento de impostos para financiar projetos previamente aprovados dentro das regras estabelecidas pelo programa.
A presença das casas de apostas, no entanto, levanta questionamentos sobre governança e responsabilidade social.
A advogada Cris Olivieri, especialista no mercado cultural, avalia que a entrada de novos patrocinadores aumenta a disponibilidade de recursos para projetos, mas ressalta que o setor de apostas também está associado a impactos sociais que podem gerar questionamentos para artistas e instituições.
Nesse cenário, produtores e agentes culturais passam a lidar com duas possibilidades: rejeitar recursos provenientes das bets por considerar problemática a associação com a atividade ou aceitar os investimentos e direcioná-los para iniciativas culturais consideradas relevantes para a sociedade.
Diante do avanço das apostas no financiamento cultural, o Ministério da Cultura informou que analisa alternativas jurídicas e normativas para estabelecer possíveis restrições ao uso da Lei Rouanet por empresas do segmento.
A pasta afirmou que acompanha a necessidade de fiscalização e regulamentação do mercado de apostas online e estuda como as regras do incentivo cultural podem ser aplicadas nesse contexto.
Atualmente, a Lei Rouanet funciona com participação voluntária de empresas patrocinadoras e critérios técnicos para aprovação dos projetos. A legislação, contudo, já estabelece restrições específicas para determinados setores.
Uma instrução normativa em vigor, por exemplo, impede a promoção de marcas relacionadas a produtos de tabaco em projetos beneficiados pelo mecanismo.
A discussão sobre as bets, portanto, abre uma nova frente de debate sobre os limites do financiamento privado da cultura por meio de incentivos fiscais.
O crescimento dos investimentos das empresas de apostas coloca o setor cultural diante de uma realidade que combina oportunidade financeira e questionamentos sobre responsabilidade.
De um lado, os recursos podem ampliar a capacidade de realização de festivais, espetáculos, festas populares e outros projetos que dependem de patrocínio para sair do papel. De outro, a associação com marcas de apostas pode representar um problema de imagem para artistas e instituições que desejam manter distância de atividades consideradas controversas.
Com a expansão do mercado regulamentado de apostas no Brasil e o avanço das discussões sobre publicidade, o debate tende a ganhar novos capítulos. A definição de regras para a participação das bets na cultura poderá determinar até que ponto esse dinheiro continuará ocupando espaço em eventos e projetos financiados com recursos públicos indiretos.
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