Avanço das bets na cultura e em grandes eventos leva governo a estudar restrições na Lei Rouanet
Presença crescente das casas de apostas no financiamento de projetos culturais e grandes eventos colocou o tema no radar do governo federal, que avalia mudanças nas regras de incentivo
Thaynara Godinho em 26 de agosto de 2026

O governo federal estuda criar restrições ao patrocínio de empresas de apostas de quota fixa em projetos culturais beneficiados pela Lei Rouanet. A discussão ocorre dentro das áreas jurídicas do Executivo e pode envolver diferentes ministérios, diante do crescimento da presença das bets no financiamento de eventos e iniciativas culturais.
A possibilidade de mudança foi confirmada pelo secretário de Fomento e Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, Thiago Rocha, em entrevista ao JOTA. Segundo ele, o governo avalia quais instrumentos jurídicos poderiam ser utilizados para impedir ou limitar a associação entre marcas de apostas e projetos financiados por meio de incentivos fiscais.
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O debate acontece em um momento em que as empresas do setor ampliam sua presença em diferentes espaços da cultura brasileira, incluindo grandes festivais, Carnaval, eventos de entretenimento, produções artísticas e celebrações tradicionais.
Um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo apontou que empresas de apostas destinaram R$ 11,8 milhões a projetos culturais por meio da Lei Rouanet desde 2025.
Do total, cerca de R$ 6 milhões foram captados no ano passado, enquanto outros R$ 5,8 milhões foram registrados em 2026 até a realização do levantamento.
Embora o montante ainda represente uma parcela pequena diante dos R$ 3,4 bilhões captados por projetos culturais em 2025, os números evidenciam a entrada das casas de apostas como um novo grupo de patrocinadores dentro do mecanismo de incentivo à cultura.
Entre as empresas identificadas no levantamento estão Kaizen Gaming, responsável pela marca Betano, além de Blaze, BetGo, Reals Bet, Bingo Bet, UX Entertainment, Esportes da Sorte, KTO, 7K e Estrelabet.
Um dos maiores aportes identificados foi realizado pela Kaizen Gaming, empresa que opera a marca Betano. O grupo destinou aproximadamente R$ 5 milhões para o Réveillon de Copacabana de 2026.
Os investimentos do setor, no entanto, não estão restritos aos projetos beneficiados pela Lei Rouanet. As bets vêm ampliando sua estratégia de patrocínio em grandes eventos culturais e de entretenimento, buscando associar suas marcas a iniciativas de grande alcance de público.
A Superbet, por exemplo, informou à Folha ter investido quase R$ 150 milhões em patrocínios culturais ao longo de 2025 e 2026. Entre os eventos apoiados pela empresa estão o Rock in Rio, o Lollapalooza e o Carnaval do Rio de Janeiro.
Esse avanço transformou o setor de apostas em um importante potencial financiador do entretenimento, ao mesmo tempo em que abriu um novo debate sobre os limites da publicidade das plataformas.
Para o Ministério da Cultura, a principal preocupação está relacionada à possibilidade de projetos incentivados pelo governo federal se tornarem espaços de divulgação para plataformas de apostas.
Segundo Thiago Rocha, a discussão acompanha uma postura mais ampla do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao setor.
“O ministério se soma a essa linha. Se todo o governo está indo nessa direção, não seria razoável ter o nome de uma bet passando no palco de eventos culturais com recursos do governo federal ou por meio da Lei Rouanet”, afirmou o secretário.
A análise ocorre em meio ao aumento das discussões sobre publicidade, comunicação e exposição das marcas de apostas no Brasil, especialmente diante da preocupação do poder público com os possíveis impactos da atividade sobre consumidores e grupos vulneráveis.
Apesar das discussões em andamento, uma eventual proibição ainda não foi definida. Rocha destacou que o Ministério da Cultura não poderia alterar sozinho as regras relacionadas ao patrocínio de empresas de apostas.
Segundo o secretário, qualquer mudança precisaria passar por uma análise jurídica e envolver outras áreas do governo. Entre as possibilidades em estudo estão a edição de um decreto ou até mesmo uma alteração na legislação.
“Não dá para ser uma canetada do nosso ministério e mudar a regra da noite para o dia”, afirmou.
A definição do instrumento jurídico será um dos principais pontos da discussão, já que uma eventual restrição poderá ter impacto direto sobre projetos culturais que dependem de patrocinadores privados para viabilizar suas atividades.
Para as casas de apostas, uma eventual limitação à exposição das marcas pode mudar significativamente a estratégia de patrocínio de eventos.
Alexandre Fonseca, CEO da Superbet, afirmou que a impossibilidade de divulgar a marca durante os eventos reduziria o interesse econômico da empresa nesse tipo de investimento.
Segundo o executivo, caso os patrocinadores sejam impedidos de associar suas marcas aos eventos, investimentos de grande porte podem deixar de fazer sentido para as empresas.
Fonseca afirmou ainda que, em um cenário de restrições mais amplas, a Superbet poderia deixar de investir em grandes eventos realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo e não expandiria esse modelo para outras cidades.
O executivo reconheceu a preocupação das autoridades com mensagens ostensivas relacionadas às apostas, mas defendeu que algumas restrições podem acabar atingindo também patrocínios institucionais que contribuem para o financiamento de grandes eventos culturais.
A possível mudança nas regras da Lei Rouanet ocorre justamente quando as empresas de apostas buscam diversificar sua presença no mercado brasileiro.
Depois de conquistar espaço expressivo no futebol e em outras modalidades esportivas, as bets passaram a investir também em música, festivais, Carnaval, produções audiovisuais e outros eventos de grande alcance.
O crescimento desses investimentos cria um novo desafio para o governo: estabelecer limites para a exposição das marcas sem comprometer fontes de financiamento utilizadas por projetos e eventos culturais.
Por enquanto, não há uma decisão oficial sobre a proibição ou restrição dos patrocínios. O tema segue em análise dentro do governo federal e deverá envolver discussões jurídicas e políticas antes de uma eventual mudança nas regras.
A definição poderá impactar não apenas as empresas de apostas, mas também produtores culturais, organizadores de eventos e instituições que passaram a enxergar o setor como uma nova fonte de recursos para financiar suas atividades.
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