GGR de apostas reguladas no Brasil chega a R$ 20,07 bilhões no primeiro semestre de 2026
Mercado regulado registra alta de 15,3% na receita bruta, movimenta mais de R$ 410 bilhões em apostas e fecha semestre com crescimento moderado, apesar das expectativas de forte expansão
Thaynara Godinho em 17 de agosto de 2026

O mercado regulado de apostas de quota fixa no Brasil movimentou cifras bilionárias no primeiro semestre de 2026. Entre janeiro e junho, o Gross Gaming Revenue (GGR), indicador que representa a receita bruta das empresas após o pagamento dos prêmios, alcançou R$ 20,07 bilhões, segundo dados obtidos pelo BNLData por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) junto à Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA/MF).
O resultado representa um crescimento de 15,3% em relação aos R$ 17,4 bilhões registrados no mesmo período de 2025. Apesar da evolução de dois dígitos, os números indicam uma expansão mais moderada do que algumas projeções feitas para o setor, especialmente diante da expectativa de impacto da Copa do Mundo sobre o volume de apostas.
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No período, o turnover, que corresponde ao total apostado pelos usuários, somou R$ 410,85 bilhões. Desse montante, R$ 377,86 bilhões retornaram aos apostadores na forma de prêmios. A taxa de retorno ao jogador, conhecida como RTP, ficou em 92,2%.
Na prática, isso significa que, em média, o mercado reteve aproximadamente 4,9% de cada real apostado, ou R$ 4,90 a cada R$ 100 movimentados.
Os dados do primeiro semestre colocam em perspectiva as previsões de crescimento acelerado das apostas online no Brasil em 2026.
A expectativa de que a Copa do Mundo provocaria um salto expressivo na atividade não se confirmou nos números mensais. O maior GGR do semestre ocorreu em janeiro, quando o mercado regulado alcançou R$ 4,29 bilhões.
Já junho, mês em que foram disputados 19 dias de partidas da Copa do Mundo, terminou com R$ 3,34 bilhões em GGR, um dos menores resultados do semestre.
O comportamento pode ser explicado, em parte, pela antecipação do calendário esportivo. Campeonatos estaduais e o Campeonato Brasileiro tiveram partidas concentradas no início do ano justamente em razão da realização do Mundial.
O volume total apostado também apresentou queda progressiva ao longo do período, passando de R$ 90,06 bilhões em janeiro para R$ 56,67 bilhões em junho.
O GGR, por outro lado, apresentou trajetória diferente. Depois de recuar para aproximadamente R$ 2,8 bilhões em fevereiro e março, voltou a crescer nos três meses seguintes e encerrou junho próximo da média mensal de R$ 3,35 bilhões.
Além do calendário esportivo, o desempenho do mercado também ocorre em um ambiente de restrições regulatórias cada vez mais abrangentes.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou em 13 de agosto que mais de 5 milhões de brasileiros estão impedidos de utilizar plataformas de apostas no país.
O grupo inclui aproximadamente 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família ou do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que não podem realizar apostas nas plataformas regulamentadas.
Outros 1,2 milhão de usuários optaram pela autoexclusão, enquanto cerca de 800 mil participantes do Novo Desenrola estão sujeitos à proibição de apostar online por pelo menos seis meses.
As medidas representam uma redução concreta do público potencial das plataformas, especialmente entre grupos considerados mais vulneráveis financeiramente.
O levantamento também aponta avanço no número de usuários cadastrados no mercado regulado.
No primeiro semestre de 2026, foram identificados 30.895.934 CPFs únicos com cadastro ativo. O dado representa um acréscimo de 2.767.762 CPFs em relação aos 28.128.172 registrados no período de referência anterior, equivalente a uma alta de aproximadamente 9,84%.
O gasto médio por apostador também aumentou. O indicador passou de R$ 618,60 para R$ 649,60 por semestre, crescimento de 5%.
Na média mensal, o valor saiu de aproximadamente R$ 103,10 para R$ 108,27.
É importante observar, porém, que os números de apostadores não podem ser comparados diretamente sem considerar a diferença de períodos analisados. Os 30,9 milhões de CPFs correspondem a um acumulado de 18 meses, enquanto os 17,7 milhões registrados em 2025 se referem especificamente ao primeiro semestre daquele ano.
No mesmo intervalo de 2025, havia 78 empresas autorizadas, responsáveis por 182 marcas. Em 2026, o mercado passou a contar com 87 empresas, alta de 11,5%, e 188 marcas, crescimento de 3,3%.
Os dados também permitem traçar um panorama do perfil dos usuários das plataformas regulamentadas.
Os homens representam 68,47% dos apostadores, enquanto as mulheres correspondem a 31,53%.
A maior concentração está na faixa entre 31 e 40 anos, que representa 28,95% do total. Em seguida aparecem os usuários de 25 a 30 anos, com 21,98%, e aqueles de até 24 anos, que correspondem a 21,30%.
As demais faixas são distribuídas da seguinte maneira:
O perfil mostra uma concentração significativa da atividade entre adultos em idade economicamente ativa.
A regulamentação também estabelece a destinação de parte da receita das apostas para diferentes áreas e políticas públicas.
Dos R$ 20,07 bilhões de GGR registrados no semestre, aproximadamente R$ 2,49 bilhões foram direcionados por determinação legal para finalidades sociais e políticas públicas. O montante equivale a cerca de 12,4% da receita bruta.
O esporte ficou com a maior parcela, recebendo R$ 870,15 milhões, destinados ao Ministério do Esporte e às secretarias estaduais e do Distrito Federal.
Entre os recursos destinados a outras áreas está o financiamento de iniciativas relacionadas à saúde e ao atendimento de pessoas afetadas por problemas relacionados às apostas.
Entre os recursos destinados à saúde estão R$ 24,19 milhões, utilizados no programa Cuidado para Pessoas com Problemas Relacionados a Jogos de Apostas, do Ministério da Saúde.
Desde março, o Sistema Único de Saúde oferece atendimento remoto e sigiloso em saúde mental para pessoas que apresentam problemas relacionados a jogos e apostas. O serviço também contempla familiares e pode funcionar como porta de entrada para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
A estrutura inicialmente previa cerca de 600 atendimentos mensais. Com o aumento da demanda, a capacidade foi ampliada para até 100 mil teleatendimentos por mês, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), em parceria com o Hospital Sírio-Libanês.
O contrato firmado entre o Ministério da Saúde e o hospital tem valor de R$ 2.942.538,05.
Outra frente de análise dos dados envolve a arrecadação tributária. Segundo levantamento realizado a partir dos códigos específicos de recolhimento, a Receita Federal arrecadou R$ 7,44 bilhões no primeiro semestre de 2026 em receitas relacionadas a apostas de quota fixa e loterias online.
Desse total, R$ 2,48 bilhões, ou 33,4%, correspondem às apostas de quota fixa. Outros R$ 4,96 bilhões, equivalentes a 66,6%, vieram das loterias.
Dentro desse último grupo, as loterias de prognósticos numéricos, como a Mega-Sena e modalidades semelhantes, responderam por aproximadamente 77,2% da arrecadação.
A arrecadação específica das apostas de quota fixa avançou durante o semestre. Em janeiro, foram recolhidos cerca de R$ 368,4 milhões. Em junho, o valor chegou a aproximadamente R$ 513 milhões, crescimento de 39,3%.
Um dos pontos de maior relevância na análise é a proximidade entre os dados fiscais da Receita Federal e os números apresentados pela Secretaria de Prêmios e Apostas.
A Receita Federal registrou R$ 2,483 bilhões em recolhimentos relacionados às apostas de quota fixa. Já as destinações sociais calculadas a partir das informações da SPA/MF chegaram a aproximadamente R$ 2,489 bilhões.
A diferença é de cerca de R$ 5,4 milhões, ou apenas 0,2%. A proximidade indica que as duas bases podem estar refletindo essencialmente o mesmo fluxo financeiro relacionado à parcela do GGR destinada por lei às políticas públicas.
Por isso, os valores não devem ser somados como se representassem duas arrecadações diferentes.
Os números do primeiro semestre de 2026 mostram um mercado regulado em expansão, mas com crescimento mais contido do que algumas previsões apresentadas anteriormente.
O GGR avançou 15,3%, o número de empresas autorizadas aumentou 11,5% e a base de apostadores também apresentou crescimento. Ao mesmo tempo, mais de 5 milhões de brasileiros estão sujeitos a algum tipo de restrição para utilizar plataformas de apostas.
O setor ainda movimenta centenas de bilhões de reais em turnover e já direciona bilhões para políticas públicas, especialmente para o esporte.
Nesse cenário, os dados obtidos via Lei de Acesso à Informação ajudam a dimensionar o tamanho real do mercado regulado e oferecem uma referência para separar projeções, expectativas e resultados efetivamente registrados.
O retrato do primeiro semestre é de crescimento consistente e de dois dígitos, mas sem a explosão esperada por algumas projeções. A expansão ocorre em um ambiente de maior fiscalização, restrições de acesso e novas medidas de proteção aos usuários.
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