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Mulheres apostam para complementar renda e estão entre as mais impactadas pelas bets no Brasil

Levantamento mostra que 42% das brasileiras já apostaram ou ainda apostam, enquanto mães recorrem às plataformas em busca de dinheiro para despesas do dia a dia

Thaynara Godinho em 17 de agosto de 2026

Mulheres apostam para complementar renda e estão entre as mais impactadas pelas bets no Brasil

O avanço das plataformas de apostas no Brasil começa a revelar um impacto cada vez mais específico sobre as mulheres. Um levantamento divulgado em agosto aponta que mais da metade das brasileiras já foi afetada de alguma forma pelas bets, seja por apostar diretamente ou por conviver com as consequências do comportamento de parceiros e familiares.

 

Segundo a pesquisa “Mulheres & Bets”, realizada pela Clarice, estúdio de pesquisa sobre mulheres e poder, em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, 42% das mulheres entrevistadas afirmam que apostam ou já apostaram. Outras 12% nunca utilizaram as plataformas, mas relatam impactos provocados pelo envolvimento de pessoas próximas com os jogos.

 

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O estudo reuniu 20 grupos qualitativos, com 60 participantes, além de uma pesquisa nacional com 2.008 pessoas realizada em julho de 2026. Os resultados foram divulgados pela Folha de S.Paulo e ajudam a traçar um perfil diferente daquele frequentemente associado ao público das apostas.

 

Mães recorrem às bets como complemento de renda

 

Um dos principais destaques do levantamento está relacionado à maternidade. Mulheres que têm filhos apresentam uma frequência de apostas aproximadamente 1,6 vez maior do que aquelas que não são mães.

 

De acordo com Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice e uma das responsáveis pela divulgação da pesquisa, a motivação de muitas dessas mulheres está menos ligada ao entretenimento e mais à necessidade de ampliar o orçamento doméstico.

 

A aposta passa, em determinados casos, a ser vista como uma espécie de renda complementar para despesas consideradas pequenas, mas que pesam no orçamento. Entre os exemplos estão compras de material escolar, alimentação, delivery, comemorações de aniversário e outros gastos cotidianos.

 

A lógica ajuda a explicar por que parte das mulheres não enxerga inicialmente a aposta como uma atividade de risco, mas como uma tentativa de conseguir dinheiro rapidamente.

 

Pressão financeira ajuda a explicar avanço das apostas

 

A expansão das bets ocorreu em um período marcado por forte instabilidade econômica para muitas famílias. As plataformas ganharam espaço durante a pandemia de Covid-19, quando houve aumento do desemprego, redução da renda e maior utilização dos serviços digitais.

 

O mercado de apostas esportivas foi legalizado no Brasil em 2018 e passou por uma expansão acelerada nos anos seguintes. Segundo dados citados no levantamento, as apostas movimentaram mais de R$ 10 bilhões das famílias brasileiras pela primeira vez em 2021.

 

Nesse cenário, as plataformas passaram a ser apresentadas nas redes sociais como uma possibilidade de obtenção rápida de dinheiro. Entre 2019 e 2025, antes da implementação de uma estrutura regulatória mais ampla para o setor, influenciadores digitais tiveram papel relevante na divulgação das apostas e de jogos de cassino.

 

Para especialistas ouvidos na pesquisa, a combinação entre dificuldade financeira, promessa de retorno rápido e facilidade de acesso contribuiu para aproximar as mulheres das plataformas.

 

Mudança no papel econômico das mulheres também pesa

 

O psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo ambulatório de dependências comportamentais do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), da Unifesp, relaciona o crescimento das apostas femininas à transformação do papel econômico das mulheres.

 

Com uma participação cada vez maior na responsabilidade pelo sustento das famílias, elas também passam a buscar alternativas para complementar a renda. Nesse contexto, as bets podem aparecer como uma possibilidade aparentemente simples de conseguir recursos.

 

O especialista, no entanto, ressalta que apostar não significa necessariamente desenvolver um comportamento problemático. O alerta está no crescimento simultâneo do uso das plataformas e dos casos em que a prática passa a causar prejuízos financeiros, familiares e emocionais.

 

Prejuízos podem ultrapassar meio milhão de reais

 

O impacto financeiro das apostas aparece de forma contundente nos relatos reunidos pela pesquisa.

 

A catarinense Bianca Araújo, de 38 anos, conheceu as apostas no período final da pandemia, influenciada pelo então marido e pelas redes sociais. Entre 2021 e 2023, a relação com as plataformas contribuiu para perdas superiores a R$ 500 mil, além de consequências sobre o casamento e a moradia.

 

Segundo o relato, empréstimos foram contratados tanto no CPF quanto no CNPJ. A família também vendeu uma caminhonete por R$ 210 mil e, posteriormente, uma parcela significativa do valor foi utilizada em apostas.

 

Inicialmente, Bianca acreditava que os palpites esportivos poderiam se transformar em uma fonte de renda. O cenário mudou conforme as perdas se acumularam.

 

Após uma recaída em 2023, quando chegou a faltar dinheiro para pagar o aluguel, ela decidiu interromper definitivamente as apostas. Desde então, afirma estar sem jogar e relata que o período foi marcado por crises de ansiedade e forte sofrimento emocional.

 

Famílias também sofrem as consequências das dívidas

 

O problema não atinge somente quem aposta. Familiares podem assumir dívidas, lidar com cobranças e enfrentar as consequências emocionais provocadas pelo comportamento de um apostador.

 

É o caso de Viviane, de 49 anos, assistente administrativa de São Paulo. A filha, atualmente com 23 anos, começou a apostar cerca de cinco anos atrás, depois de perder o emprego e receber incentivo de colegas.

 

A situação se agravou em 2025, quando a jovem contraiu uma dívida com um agiota que conheceu pela internet. Sem conseguir pagar o valor, a família passou a ser alvo de cobranças.

 

A situação começou a mudar em 2026, quando familiares descobriram a possibilidade de solicitar o bloqueio do CPF para impedir o acesso às plataformas autorizadas. A jovem está há alguns meses sem apostar, embora a família ainda arque com aproximadamente R$ 5 mil em dívidas remanescentes.

 

O caso mostra como o impacto das bets pode se espalhar para além do apostador, atingindo diretamente a estrutura financeira e emocional de toda a família.

 

Cassinos online preocupam especialistas

 

Outro ponto destacado pelo levantamento é a maior presença dos cassinos digitais entre as mulheres. Para os pesquisadores, a velocidade com que esse tipo de jogo apresenta resultados pode aumentar o risco de desenvolvimento de um comportamento compulsivo.

 

Diferentemente das apostas esportivas, nas quais o apostador normalmente precisa esperar o resultado de uma partida, os jogos de cassino permitem sucessivas apostas em poucos segundos.

 

Na avaliação de Beatriz Della Costa, essa dinâmica torna os cassinos online especialmente relevantes nas discussões sobre prevenção e proteção dos usuários.

 

O estudo, por isso, defende que medidas regulatórias considerem de maneira prioritária os jogos de cassino digital, sobretudo por sua facilidade de acesso e pela rapidez entre aposta, resultado e possibilidade de uma nova tentativa.

 

Regulação busca ampliar proteção dos apostadores

 

As empresas autorizadas a operar no mercado regulado afirmam que existem mecanismos destinados à proteção dos usuários, incluindo ferramentas de bloqueio e medidas de jogo responsável.

 

Entidades do setor também apontam a concorrência com plataformas ilegais como um dos principais desafios. Segundo associações do mercado, operadores autorizados precisam cumprir obrigações regulatórias e arcar com custos de licença, enquanto sites clandestinos atuam fora dessas exigências.

 

Apesar dos mecanismos já implementados, pesquisadores avaliam que a proteção não deve se limitar ao bloqueio de contas ou à criação de intervalos entre apostas.

 

Combate ao problema passa pela questão financeira

 

Para os responsáveis pelo estudo, compreender por que as mulheres começam a apostar é fundamental para desenvolver políticas de prevenção mais eficientes.

 

No caso das mães, a pesquisa indica que a promessa de ganhar dinheiro rapidamente pode estar diretamente associada à pressão para manter o orçamento doméstico. Por isso, apenas restringir o acesso às plataformas não necessariamente elimina a motivação que levou essas mulheres a apostar.

 

A discussão envolve também educação financeira, proteção social, acesso a tratamento para comportamentos compulsivos e mecanismos capazes de identificar precocemente situações de risco.

 

Os dados do levantamento reforçam que o fenômeno das bets não pode ser analisado apenas como uma questão de entretenimento. Para uma parcela das mulheres brasileiras, a aposta aparece como uma tentativa de complementar a renda e lidar com despesas cotidianas, justamente o que pode tornar a atividade ainda mais perigosa quando as perdas começam a superar os ganhos.

 

🔞 O jogo não é a sua realidade e o resultado de sua aposta não te define como uma pessoa bem ou mal-sucedida. Procure ajuda psicológica e conheça o que é a Ludopatia. Jogue com responsabilidade. Ministério da Fazenda adverte: Aposta não é investimento.

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