Restrições às bets colocam mais de R$ 1 bilhão em patrocínios do futebol brasileiro em risco
Possíveis mudanças nas regras das apostas esportivas podem atingir uma das principais fontes de receita dos clubes, além de provocar impactos sobre empregos, arrecadação e o mercado clandestino
Thaynara Godinho em 24 de setembro de 2026

A pergunta ganhou força nesta semana após o governo federal sinalizar a possibilidade de adotar novas medidas contra as bets e os jogos online. Entre as alternativas em discussão estão restrições à publicidade, mudanças no funcionamento do mercado e até a retirada dos cassinos online das plataformas autorizadas.
Para os clubes, a discussão acontece em um momento em que as empresas de apostas já ocupam alguns dos espaços comerciais mais valiosos do futebol nacional.
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O receio é que uma proibição ou redução significativa da atuação dessas empresas provoque uma reação em cadeia, atingindo contratos de patrocínio, receitas comerciais e diferentes segmentos ligados ao esporte.
A presença das bets no futebol brasileiro cresceu rapidamente desde a regulamentação do mercado. Hoje, algumas das principais equipes do país têm suas camisas associadas a marcas de apostas.
Entre os maiores acordos atualmente conhecidos estão os contratos de:
Os valores mostram por que uma eventual mudança nas regras preocupa as equipes. Não se trata apenas da perda de um patrocinador, mas da necessidade de encontrar empresas dispostas a assumir contratos de valor elevado em um mercado publicitário altamente competitivo.
Caso as restrições impeçam a continuidade dos acordos, os clubes terão de renegociar contratos ou buscar novas marcas para ocupar os espaços deixados pelas bets.
A reação das equipes já começou. Um grupo formado por alguns dos principais clubes brasileiros publicou um manifesto defendendo a permanência do mercado regulamentado de apostas.
Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco, Santos, Palmeiras, São Paulo, Corinthians, Cruzeiro e Atlético-MG estão entre os clubes que aderiram ao posicionamento. As federações Paulista e Carioca também participaram da mobilização.
A defesa apresentada pelas instituições não é pela ausência de regras. O documento sustenta justamente a necessidade de manter um ambiente legalizado, com fiscalização e mecanismos destinados à proteção dos consumidores.
Entre os pontos defendidos estão o combate às plataformas clandestinas, o fortalecimento da fiscalização e a ampliação das ações de educação e jogo responsável.
A preocupação central é que o desaparecimento do mercado legal não necessariamente elimine a demanda dos consumidores.
Esse é um dos principais argumentos apresentados por representantes das empresas autorizadas.
Um levantamento da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) estima que, em um cenário de proibição dos cassinos online nas plataformas regulamentadas, a participação dos operadores clandestinos poderia aumentar de 41% para 82%.
Na prática, isso significaria uma transferência de parte dos consumidores para sites que não estão submetidos às mesmas exigências impostas às empresas autorizadas no Brasil.
É justamente nesse ponto que representantes do setor defendem a chamada “canalização”, estratégia que busca fazer com que o consumidor permaneça dentro do mercado regulamentado.
Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da ANJL e sócio do escritório Betlaw, argumenta que a regulamentação permite criar mecanismos de controle sobre as operações e orientar o público para empresas legalizadas.
O debate, entretanto, também envolve uma questão levantada pelo próprio governo: a necessidade de reduzir problemas relacionados ao consumo excessivo de apostas, ao endividamento e à dependência.
Outro efeito que pode ser considerado nas discussões é o impacto sobre os cofres públicos.
Representantes do setor afirmam que as empresas de apostas contribuíram com quase R$ 10 bilhões em tributos ao longo de 2025.
A arrecadação é uma das consequências da criação de um mercado formal, no qual as empresas autorizadas estão sujeitas a regras específicas e ao pagamento de impostos.
Uma eventual redução expressiva desse mercado, portanto, teria efeitos que ultrapassariam os contratos de patrocínio esportivo.
De um lado, o governo avalia mecanismos para combater os efeitos negativos das apostas. Do outro, representantes do setor argumentam que a manutenção de empresas autorizadas facilita a fiscalização e preserva receitas tributárias.
As consequências econômicas também aparecem no mercado de trabalho. Segundo João Fraga, CEO da Paag, o setor regulamentado reúne atualmente mais de 10 mil empregos diretos e outros 5,5 mil indiretos.
A cadeia envolve empresas de tecnologia, pagamentos, marketing, publicidade, atendimento, compliance, segurança digital e gestão de risco, além das atividades relacionadas diretamente às plataformas.
Fraga também destaca que o ambiente regulamentado estabelece mecanismos para identificar operações financeiras, impedir a participação de menores e implementar ferramentas de jogo responsável.
Esses mecanismos são apontados pelo setor como uma das principais diferenças entre empresas autorizadas e operadores clandestinos.
Além dos patrocínios, a publicidade das apostas está entre os setores que podem sofrer mudanças.
A discussão ocorre porque as casas de apostas se tornaram grandes anunciantes no futebol, na televisão, nas redes sociais e em outros meios de comunicação.
Daniel Fortune, produtor de conteúdo relacionado à conscientização sobre apostas, afirma que a publicidade pode cumprir também uma função informativa ao ajudar o consumidor a diferenciar empresas autorizadas de plataformas ilegais.
Para ele, a comunicação comercial precisa estar associada a informações sobre riscos, limites e jogo responsável, seguindo as regras estabelecidas pelos órgãos reguladores e pelo Conar.
O governo, por sua vez, avalia regras mais restritivas para a exposição das apostas, especialmente diante da preocupação com a normalização do comportamento de apostar.
A discussão sobre o futuro das bets não envolve somente as empresas do setor. Para o futebol brasileiro, a questão representa uma possível mudança em um modelo comercial que ganhou espaço em poucos anos.
Mais de R$ 1 bilhão por temporada em patrocínios ajuda a explicar a dimensão do problema para os clubes.
Se esses recursos deixarem de circular, as equipes precisarão encontrar novas fontes de receita para compensar a saída das casas de apostas. A velocidade dessa substituição e os valores que novos patrocinadores estariam dispostos a pagar são questões que ainda não têm resposta.
Ao mesmo tempo, uma eventual proibição poderia deslocar parte da atividade para operadores clandestinos, segundo estimativas apresentadas pela ANJL, enquanto o governo sustenta a necessidade de enfrentar os problemas sociais associados às apostas.
A possível Medida Provisória anunciada pelo governo federal poderá estabelecer um novo capítulo na relação entre apostas e esporte no país.
Ainda não está definido qual será o alcance final das medidas nem como elas afetarão contratos já firmados entre clubes e empresas.
O tema deverá provocar novas discussões no Congresso Nacional, entre clubes, entidades esportivas, empresas de apostas e organizações voltadas à proteção dos consumidores.
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