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Lula proíbe as bets e mercado clandestino cresce: 428 sites ilegais surgem em três dias

Levantamento aponta aceleração na criação de plataformas clandestinas após a publicação da MP 1.394/2026, enquanto governo intensifica bloqueios e enfrenta o desafio de fiscalizar o mercado ilegal

Thaynara Godinho em 28 de setembro de 2026

Lula proíbe as bets e mercado clandestino cresce: 428 sites ilegais surgem em três dias

A proibição das bets no Brasil já começa a produzir um dos principais efeitos apontados por críticos da medida: o avanço do mercado clandestino. Em apenas três dias após a publicação da Medida Provisória nº 1.394/2026, foram identificadas 428 novas plataformas ilegais de apostas no país, segundo dados da plataforma de monitoramento Bet Legal.

 

O levantamento considera o período entre a edição da MP, na sexta-feira (25), e o domingo (27). A medida assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no território nacional, incluindo apostas esportivas e jogos online.

 

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O movimento ocorre justamente no momento em que o governo tenta desmontar o mercado regulado e ampliar a fiscalização contra operadores clandestinos. Nesta segunda-feira (28), o governo informou que uma força-tarefa formada pelos Ministérios da Justiça e Segurança Pública e da Fazenda havia derrubado 506 sites suspeitos de oferecer apostas de forma irregular.

 

Segundo o levantamento do Bet Legal, foram identificados 674 novos sites ilegais entre 21 e 27 de setembro. Antes da publicação da MP, 246 novos domínios haviam surgido entre os dias 21 e 24, uma média de aproximadamente 62 por dia.

 

Após a divulgação da medida, o ritmo aumentou. Entre sexta-feira (25) e domingo (27), foram 428 novos sites, o equivalente a cerca de 143 plataformas por dia.

 

A diferença chamou atenção porque ocorre justamente no momento em que o governo determina o encerramento das operações legais. A MP estabelece a proibição das apostas de quota fixa e prevê a extinção das autorizações atualmente existentes dentro do prazo estabelecido pelo texto.

 

O crescimento dos domínios clandestinos coloca um dos principais desafios da nova política: impedir que os apostadores simplesmente migrem para plataformas que não estão submetidas às regras brasileiras.

 

Governo reage com operação contra sites clandestinos

 

A resposta oficial veio rapidamente. Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, uma força-tarefa formada em conjunto com o Ministério da Fazenda identificou e derrubou 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas.

 

O monitoramento também encontrou publicidade de plataformas de apostas em ambientes digitais após a entrada em vigor da MP. As equipes envolvidas na operação passaram a acompanhar ainda redes utilizadas para divulgação de sites clandestinos.

 

O Ministério da Justiça informou também que uma rede de divulgação de apostas no Telegram, com aproximadamente 212 mil usuários, está sendo monitorada.

 

O cenário evidencia uma disputa entre a velocidade de criação de novos domínios e a capacidade do Estado de identificá-los, bloqueá-los e impedir que retornem à internet utilizando outros endereços.

 

A fiscalização será o principal teste da nova política

 

A MP 1.394/2026 criou um Comitê Interinstitucional de Fiscalização da Exploração e da Publicidade Ilegal de Apostas de Quota Fixa. O objetivo é coordenar as ações contra empresas e plataformas que continuarem oferecendo apostas proibidas.

 

O desafio, porém, é maior do que simplesmente retirar sites do ar. Plataformas clandestinas podem operar a partir do exterior, trocar de domínio e utilizar diferentes meios de divulgação e pagamento.

 

Durante o período de regulamentação das bets, o governo estabeleceu mecanismos para que empresas autorizadas fossem submetidas a regras específicas. Entre as medidas estavam exigências de identificação dos usuários, restrições a determinados meios de pagamento e mecanismos de proteção ao apostador.

 

Com a proibição, essas ferramentas deixam de existir para quem migrar para sites ilegais.

 

Mercado regulado perde espaço para operadores sem autorização

 

A discussão sobre o avanço da clandestinidade ganhou força porque o Brasil havia adotado, até então, uma estratégia diferente: permitir a atividade dentro de um ambiente regulado.

 

A partir da regulamentação, empresas interessadas em operar no país passaram a depender de autorização federal e a cumprir uma série de exigências.

 

A MP agora muda completamente essa estratégia. O artigo 1º determina a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, tanto em ambientes físicos quanto virtuais. A regra também alcança operadores estrangeiros que ofereçam apostas a pessoas localizadas no Brasil.

 

O texto também determina que a proibição alcance as loterias de apostas de quota fixa exploradas pelos estados e pelo Distrito Federal.

 

Setor questiona impacto econômico e jurídico

 

A mudança provocou reação entre empresas, entidades e especialistas ligados ao mercado de apostas. Uma das principais discussões envolve os investimentos feitos pelas empresas que receberam autorização para operar no país.

 

Antes da mudança, empresas haviam pago valores elevados para obter outorgas e estruturado operações seguindo as regras estabelecidas pelo próprio governo.

 

Agora, com a extinção das autorizações, o setor avalia medidas judiciais e questionamentos relacionados à segurança jurídica da decisão.

 

A discussão deverá envolver também os efeitos fiscais da medida, já que o mercado regulado vinha gerando arrecadação por meio de impostos e taxas.

 

O tema ganhou espaço no Congresso desde a publicação da MP, que agora precisa ser analisada pelos parlamentares para continuar produzindo efeitos. A medida tem força de lei desde sua publicação, mas depende da apreciação do Legislativo dentro do prazo constitucional.

 

Aposta clandestina não oferece as mesmas proteções

 

Um dos pontos centrais do debate é a diferença entre uma plataforma autorizada e um site clandestino. No mercado regulado, as empresas precisam seguir normas determinadas pelo governo. Já uma operação ilegal não está submetida às mesmas obrigações.

 

Isso significa que usuários que migrarem para plataformas clandestinas podem ficar fora de mecanismos de proteção previstos na regulamentação brasileira.

 

Entre as medidas adotadas pelo modelo regulado estavam mecanismos de identificação, restrições para determinados públicos, regras de publicidade e instrumentos destinados à prevenção e ao controle do comportamento de aposta.

 

Na prática, o desafio para o governo passa a ser impedir que uma política criada para reduzir os danos das apostas termine empurrando parte da atividade para um ambiente sobre o qual o Estado possui menos controle.

 

Debate sobre o mercado ilegal ganha novos números

 

O crescimento registrado pelo Bet Legal ocorre em um mercado que já apresentava grande quantidade de sites clandestinos antes mesmo da MP.

 

Dados citados em reportagens recentes apontam que milhares de domínios ilegais podem estar disponíveis simultaneamente para apostadores brasileiros. O fenômeno é favorecido pela facilidade de criação de novos endereços digitais e pela atuação de empresas sediadas fora do país.

 

A velocidade observada após a publicação da MP adiciona um novo elemento à discussão: enquanto as empresas autorizadas caminham para o encerramento de suas atividades, operadores ilegais podem tentar ocupar rapidamente o espaço deixado por elas.

 

A diferença entre os dois mercados passa, portanto, a ser também uma questão de fiscalização.

 

Futebol e publicidade entram na discussão

 

A proibição também atinge setores que haviam desenvolvido uma forte relação comercial com as empresas de apostas.

 

Clubes de futebol, campeonatos, emissoras de televisão, sites esportivos e influenciadores estão entre os segmentos que receberam investimentos publicitários das bets nos últimos anos.

 

Com a nova regra, contratos de patrocínio e publicidade precisam ser revistos diante da impossibilidade de manutenção das campanhas de empresas afetadas pela MP.

 

O impacto financeiro dependerá da forma como os contratos serão encerrados e da capacidade dos veículos, clubes e demais empresas de substituir rapidamente as receitas provenientes do setor.

 

MP ainda pode mudar durante tramitação no Congresso

 

A Medida Provisória nº 1.394/2026 começou a tramitar no Congresso Nacional nesta segunda-feira (28). O texto prevê o encerramento das autorizações atualmente existentes e estabelece um cronograma para a retirada das operações.

 

Durante a tramitação, deputados e senadores poderão apresentar alterações, rejeitar a medida ou permitir que ela avance.

 

Enquanto isso, o governo terá de lidar com uma questão imediata: impedir que o espaço deixado pelo mercado regulado seja ocupado por operadores clandestinos.

 

Os números registrados nos primeiros dias oferecem um sinal de alerta sobre a dimensão do desafio. Em três dias, 428 novos sites ilegais foram identificados pelo Bet Legal, enquanto, no mesmo período, o governo iniciou uma ofensiva que resultou na derrubada de centenas de plataformas suspeitas.

 

O resultado dessa disputa dependerá da capacidade de fiscalização, bloqueio financeiro, retirada de publicidade e cooperação com empresas de tecnologia.

 

A proibição das bets, portanto, não encerra o mercado de apostas no Brasil de forma automática. Ela inaugura uma nova fase, na qual o principal desafio do poder público será impedir que a atividade migre para um ambiente clandestino, ao mesmo tempo em que administra os impactos econômicos, jurídicos e sociais provocados pela mudança de política.

 

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