Proibição das bets pode tirar R$ 2,6 bilhões do esporte olímpico e paralímpico até 2027
Encerramento das apostas esportivas deve reduzir repasses ao COB, CPB, clubes e confederações; entidades já estudam cortes e readequações para manter a preparação para os Jogos de Los Angeles 2028
Thaynara Godinho em 5 de outubro de 2026

A decisão do governo federal de interromper as operações das casas de apostas esportivas no Brasil deve provocar um impacto de aproximadamente R$ 2,623 bilhões no financiamento do esporte olímpico e paralímpico até 2027.
O cálculo considera os recursos que deixarão de chegar a entidades esportivas por meio da arrecadação das apostas de quota fixa, regulamentada pela Lei nº 14.790/2023. Entre os principais afetados estão o Comitê Olímpico do Brasil (COB), o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), o Comitê Brasileiro de Clubes (CBC) e o Ministério do Esporte.
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De acordo com levantamento realizado pelo COB e confirmado por dirigentes do setor, cerca de R$ 497 milhões deixarão de ser destinados ao esporte entre outubro e dezembro de 2026. Para 2027, a estimativa aponta uma perda de aproximadamente R$ 2,1 bilhões.
O levantamento considera os valores efetivamente arrecadados e distribuídos entre 2025 e setembro de 2026. O prejuízo pode ser ainda maior, já que a projeção não contabiliza determinadas receitas que algumas confederações recebiam diretamente a partir de apostas relacionadas às próprias modalidades.
A interrupção das bets ocorreu após o governo federal editar uma Medida Provisória determinando o fim das operações. A justificativa apresentada foi a necessidade de combater o endividamento das famílias e reduzir os impactos sociais associados às apostas.
O Comitê Olímpico do Brasil está entre as entidades que mais sentirão os efeitos da mudança. Segundo o presidente do COB, Marco La Porta, aproximadamente R$ 200 milhões foram arrecadados pela entidade em repasses das bets entre 2025 e setembro de 2026.
A previsão era receber mais cerca de R$ 25 milhões até dezembro de 2026 e algo entre R$ 125 milhões e R$ 130 milhões ao longo de 2027.
O valor representa uma parcela significativa do orçamento da entidade, estimado em aproximadamente R$ 600 milhões. Com a interrupção da fonte de receita, o COB deverá perder cerca de 20% da receita que estava prevista.
A preocupação aumenta diante da proximidade dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, cuja preparação exige investimentos elevados.
La Porta afirmou que a entidade pretende preservar as ações consideradas prioritárias para a formação e preparação do Time Brasil. Para isso, o COB deverá reduzir despesas internas e recorrer ao fundo de reserva.
Entre as medidas que podem ser afetadas está a expansão dos Jogos da Juventude. O dirigente também chamou atenção para os clubes que já haviam firmado compromissos e planejado investimentos considerando a manutenção dos recursos provenientes das apostas.
Para o presidente do COB, deveria ter existido um período de adaptação antes da interrupção dos repasses.
O diretor de Esporte do COB, Jorge Bichara, também reconheceu que a perda da arrecadação obrigará a entidade a reavaliar o planejamento financeiro para 2027.
Segundo ele, a preparação para Los Angeles continua sendo tratada como prioridade, mas ainda não é possível garantir que todos os projetos inicialmente previstos serão mantidos.
O COB terá de redistribuir internamente os recursos disponíveis para preservar as áreas consideradas essenciais. Entre elas está o suporte oferecido aos atletas durante os Jogos Olímpicos, que representa uma das despesas mais relevantes da preparação.
Apesar do cenário de redução de receitas, a entidade não pretende diminuir os valores destinados às confederações esportivas.
A estratégia será manter os repasses nos níveis atuais e realizar os cortes principalmente dentro da estrutura do próprio COB. Em 2026, estavam previstos cerca de R$ 285 milhões em investimentos.
A situação também é influenciada pelo modelo adotado durante a regulamentação das bets. Como havia incertezas jurídicas sobre a nova fonte de recursos, parte do dinheiro recebido pelas apostas foi direcionada para uma reserva técnica.
Enquanto isso, as confederações receberam valores maiores por meio da Lei Agnelo Piva, vinculada às loterias federais administradas pela Caixa.
O impacto não ficará restrito ao esporte olímpico convencional. O setor paralímpico também deverá perder uma parcela importante de seus recursos.
O Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) recebeu aproximadamente R$ 57,4 milhões das apostas esportivas em 2025. Até setembro de 2026, os repasses já somavam R$ 54,1 milhões. Para 2027, a previsão inicial era alcançar cerca de R$ 82,1 milhões.
Já o Comitê Brasileiro de Clubes calcula que poderá enfrentar um déficit de aproximadamente R$ 50 milhões.
O presidente do CBC, Paulo Maciel, criticou a interrupção dos recursos justamente em um momento em que clubes e entidades estavam estruturando seus calendários, contratações e projetos de formação.
Na avaliação do dirigente, a mudança ocorre depois de o próprio governo ter criado e regulamentado o mercado de apostas. Ele também demonstrou expectativa de que o Congresso Nacional possa modificar a medida durante sua análise.
A Confederação Brasileira de Basquete (CBB) também aparece entre as modalidades afetadas. A entidade recebeu aproximadamente R$ 13 milhões provenientes das bets em 2025. Somando os valores obtidos ao longo do período seguinte, os recursos chegaram a cerca de R$ 19 milhões.
Para o restante de 2026, a CBB deverá receber aproximadamente R$ 6,1 milhões do COB por meio da Lei Agnelo Piva, valor inferior ao que havia sido obtido diretamente pelas apostas.
O CEO da CBB, André Alvez, afirmou que a entidade havia elaborado seu planejamento financeiro considerando a continuidade da regulamentação.
A expectativa era de crescimento da arrecadação, especialmente com a retomada da temporada da NBA, período tradicionalmente associado a um aumento no volume de apostas relacionadas ao basquete.
A Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM) acumulou aproximadamente R$ 5 milhões em recursos provenientes das apostas esportivas desde abril de 2025.
O montante corresponde a uma parcela relevante de um orçamento anual estimado em R$ 25 milhões.
Segundo o presidente da entidade, Vilmar Schindler, os valores ainda não haviam sido utilizados. A CBTM aguardava maior segurança sobre as regras para aplicação do dinheiro antes de direcioná-lo a novos projetos.
A intenção era utilizar os recursos para ampliar investimentos no alto rendimento e na formação de novos atletas.
Com a interrupção da arrecadação, essas iniciativas terão de ser reavaliadas dentro do planejamento financeiro da confederação.
A Lei nº 14.790/2023 estabeleceu que uma parcela de 36% da arrecadação das bets seria destinada ao esporte.
O modelo previa uma divisão entre diferentes órgãos e entidades do setor. O Ministério do Esporte ficaria com a maior fatia, enquanto COB, CPB, CBC, entidades de desporto escolar, universitário, paralímpico e master também receberiam percentuais específicos.
A distribuição prevista era:
Com o fim das operações das bets, essas entidades terão de lidar com a redução ou interrupção de uma fonte de financiamento que passou a fazer parte do planejamento esportivo nacional.
O impacto financeiro coloca em debate não apenas o futuro das apostas esportivas, mas também a dependência de entidades olímpicas e paralímpicas de receitas vinculadas ao setor.
Para o COB, a prioridade será preservar a preparação dos atletas para Los Angeles 2028, mesmo diante da necessidade de cortes e remanejamentos.
Enquanto as entidades reorganizam seus orçamentos, o debate sobre a Medida Provisória deverá avançar no Congresso Nacional. O resultado dessa discussão poderá definir se os recursos destinados ao esporte serão definitivamente interrompidos ou se haverá algum modelo de transição para reduzir o impacto sobre clubes, confederações e atletas.
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